Mário Sacramento

Mário Emílio de Morais Sacramento nasceu em Ílhavo, em 7 de julho de 1920. Médico de profissão, singularizou-se na literatura, com uma obra vastíssima, e na luta política, enquanto defensor da liberdade e opositor ao regime fascista.

O seu comprometimento com o ideal de uma sociedade humanista e livre manifesta-se desde cedo, ainda na sua vida estudantil. No Liceu de Aveiro, onde fez os seus estudos secundários, foi diretor do jornal A voz académica e sofreu a primeira prisão pela PIDE, aos 17 anos.

Estudou medicina na universidade de Coimbra e concluiu a licenciatura em 1946, na universidade de Lisboa, onde viria a integrar o Movimento de Unidade Democrática juvenil. Mais tarde, em Paris, especializou-se em gastroenterologia.

Enquanto intelectual atento aos tempos sombrios de ditadura que então decorriam, colaborou em periódicos como O diabo, Sol Nascente, Vértice, O Comércio do Porto, Diário de Lisboa.

Na literatura, notabilizou-se sobretudo na crítica literária e no ensaio, sendo também um dos principais teóricos do neorrealismo.

Participou em reuniões e ações de luta clandestinas com outros intelectuais e antifascistas do seu tempo, sofrendo, “na carne e no espírito”, o preço da heterodoxia: censura, perseguição, tortura e prisão. Pagou, como bem lembra Eduardo Lourenço, com a moeda que os deuses amam, o serviço que a poucos compete, mas que Mário Sacramento, não obstante a solidão e o desespero, assumiu ser o dever do homem: derrubar o fascismo e instaurar uma sociedade humana! Nesse sentido, pugnou para que somente o diálogo e o debate de ideias instituíssem a condição para que a razão se pudesse fazer ouvir. Ateu assumido, aceitou dialogar com os católicos porque a fé não pode separar “os homens no que mais intimamente os une: a sua própria condição humana”.

Mário Sacramento foi secretário geral e organizador do 1.º Congresso Republicano em Aveiro (1957), que juntou as principais personalidades da oposição democrática ao Estado Novo. Esteve igualmente envolvido na preparação do 2.º Congresso Republicano, que teve lugar também em Aveiro entre 15 e 17 de maio de 1969, no qual já não pôde participar. Mário Sacramento morreu em 27 de março de 1969.

 

“Sentimentalóide, foi sempre o medo de me esfarrapar em ternura que me criou o complexo de frieza intelectualizada.”

(Sacramento, M., Diário, p.20)